"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
(Clarice Lispector)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Emparedado




"Mas, que importa tudo isso?!
Qual é a cor da minha forma, do meu sentir?
Qual é cor da tempestade de dilacerações que me abala?
Qual a dos meus sonhos e gritos?
Qual a dos meus desejos e febre?
Artista?! Loucura! Pode isso ser se tu vens da longíqua região desolada,
lá do fundo exótica dessa terra sugestiva , gemente!
Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do mundo,
porque atrás de ti e diante de ti não sei quantas gerações foram acumulando,
acumulando pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, aí estás agora
o verdadeiro emparedamento de uma raça.
Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás ansioso, aflito,
numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos!
Se caminhares para esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas,
mais alta que a primeira, te mergulhará profundamente num espanto!
Se caminhares para frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências,
tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto!
Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede,
fechando tudo, fechando tudo horrível! -parede de Imbecilidade e Ignorância,
te deixará num frio espasmo de terror absoluto...
E mais pedras, mais pedras se sobreporão `as pedras já acumuladas,
mais pedras, mais pedras... Pedras dessas odiosas, caricatas fatigantes
Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras!
E as estranhas paredes hão de subir -longas, negras, terríficas!
Hão de subir, subir, subir, subir, mudas, silênciosas, até `as Estrelas,
deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado
dentro do teu próprio sonho ..."
(Cruz e Souza)