"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."
(Clarice Lispector)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

...



Escadas


ALTas e Baixas


E que altura!


E que profundeza!






Subi e desci várias escadas...várias vezes!


Muitas vezes chegando no último degrau

caí tonta, desequilibrando


Já fui empurrada escada abaixo também

Batendo a cabeça degrau por degrau

me machucando toda

Já empurrei alguém

que se machucou também


Já escorreguei por acidente

Já desci carregada no colo inconsciente

e acordei lá embaixo novamente


Escadas feias, velhas, quebradas...

De madeira, de metal, de concreto...

Imensas que me deixaram sem fôlego!


Do tipo caracol, simples, retas, portáteis...

As que tem intervalos no meio

mas essas são as de emergência!


Já desci escorregando pelo corrimão


E agora exatamente estou rastejando

para subir pelo menos um degrauzinho

para não me afogar numa enchente...

E ainda na expectativa

de depois que a água abaixar

poder descer novamente


Mas tenho a impresão

de que ela vai subir, isso sim!


Já me estenderam a mão

Já me jogaram uma corda

Até um bote e um helicóptero

pra me resgatar


Desconfiei de todos

e me senti mais segura acuada aqui

nesse mesmo lugar


Não que eu achasse que pudesse subir sozinha

mas porque já basta de subir , descer, cair , ser empurrada ou empurrar...


Todas as vezes que consegui subir até o fim

de alguma forma tive que descer denovo

por algum motivo que ainda não reconheço


Subir e descer e ainda questionar o porque?


subi uma escada linda uma vez

e acompanhada


E caí denovo!


Subi uma escada horrível

Com alguém muito lento

e com alguém muito rápido


Agora a minha única certeza

é que vou ficar parada aqui

nesse mesmo degrau

mas ainda não é tão ruim..


Posso dividir esse degrau

com alguém que queira ficar parado aqui também


Não sei se posso ou se devo ficar

não é minha a escada , nem meu o degrau


Mas, daqui eu não saio

Daqui ninguém me tira!


Não vou subir e cair denovo

Nem vou me afogar de propósito

Não que eu já não tenha tentado!


Talvez eu tente nadar contra a correnteza

quem sabe eu não chego em outra escada

mas não agora!


Talvez eu espere uma companhia

para tentarmos subir juntos

e cairmos juntos

ou jogarmos um ao outro lá embaixo


Teve uma vez que eu estava lá em cima

e zombei de alguém que estava lá embaixo

Teve uma vez que eu estava lá embaixo

e alguém lá de cima zombou de mim


Teve uma vez que fiz alguém descer

para subirmos juntos

Mas não consegui!


Talvez eu suba só mais esse próximo degrau

pra ter mais tempo de decidir

se subo ou fico e me afogo


Talvez a água suba tanto

me impulsionando a subir

mas mesmo assim

todos os degraus

não sejam o suficiente


Se eu pudesse,

não que eu não quizesse


Estaria numa cama conforvável

acompanhada por alguém

abraçadinhos...

dormindo ao mesmo tempo

e até unidos no mesmo sonho...


Não vou obrigar ninguém a subir

nem descer mais...

mas também não vão me obrigar a subir

e nem a descer também!


Talvez altura!


Talvez profundeza!


Talvez solidão!


Talvez tristeza!


Talvez só correnteza!


Permaneço no mesmo degrau

e a correnteza é forte

e já beira esse degrau


Acho que talvez

eu deva simplesmente deixá-la me levar...


Talvez eu ainda encontre alguém lá no fundo...


Nos beijaremos...


Não seremos nem rápidos, nem lentos…


(Talita Cassanelli)